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Continuidade

"Nunca deu problema" é sintoma, não atestado de saúde

"Mas nunca deu problema, por que eu preciso

7 min de leitura testado em Oracle 19c
A frase Nunca deu problema, com a nota: nao e atestado de saude

"Mas nunca deu problema, por que eu preciso disso?"

Ouço essa frase em reunião há mais de vinte anos, quase sempre dita por alguém honesto, que olha para o próprio ambiente e não vê motivo para gastar dinheiro com uma coisa que aparentemente está funcionando. O ERP abre. O relatório sai. Ninguém liga reclamando. Se o servidor de banco de dados nunca apareceu na lista de problemas do mês, por que ele entraria na lista de despesas?

O incômodo é que essa leitura está correta nos fatos e errada na conclusão. O banco realmente não deu problema. Isso não significa que ele esteja bem.

por que o banco aguenta calado

Oracle e SQL Server foram construídos para uma missão muito específica: continuar operando sob condições ruins. Isso não é acidente nem descuido do fabricante, é decisão de engenharia. Um banco corporativo que caísse toda vez que encontrasse uma inconsistência seria inútil em produção. Então ele foi feito para contornar, registrar e seguir em frente.

Na prática, o backup pode estar falhando há semanas e o sistema segue vendendo normalmente, porque backup não é requisito para o banco funcionar, é requisito para você conseguir voltar depois. O espaço em disco pode estar em 94 por cento e nada acontece, até o dia em que chega a 100. O log de erros do banco pode ter dezenas de mensagens graves acumuladas e o usuário final não percebe nada, porque esse log foi feito para o administrador ler, e em muitas empresas ninguém tem essa tarefa formalmente atribuída.

O resultado é um ambiente que absorve problema em silêncio por muito tempo. Enquanto absorve, ele não avisa. Quando não consegue mais absorver, ele para.

quem não reclama some do radar

Existe um padrão que eu vejo em praticamente toda empresa que atendo, do varejo à saúde. A TI trabalha por chamado. Quem grita recebe atenção, quem não gera ticket vai para o fim da fila e depois some da fila.

Isso cria uma inversão perversa. O servidor que dá pau uma vez por mês recebe visita, análise e investimento. O servidor que roda há oito anos sem incidente vira mobília. Ninguém abre. Ninguém confere. Em alguns casos, nem sabe direito qual versão está instalada ali.

Já entrei em ambientes onde o banco mais crítico da operação, o que sustenta faturamento, era também o mais antigo e o menos olhado da casa, exatamente porque ele nunca tinha dado trabalho. A estabilidade aparente comprou anos de desatenção.

o que se acumula sem dar sinal

Vale ser concreto, porque na conversa abstrata isso tudo parece exagero de consultor.

Backup que falha sem alerta é o caso mais comum. A rotina existe, foi configurada anos atrás, e em algum momento parou de rodar ou passou a rodar com erro. Como o e-mail de notificação vai para uma caixa que não existe mais, ou para alguém que já saiu da empresa, o erro nunca chega em ninguém.

Espaço é a segunda. O banco cresce todo mês, de forma previsível, e ninguém acompanha a curva. Não existe aviso intermediário útil. O comportamento é binário: funciona, funciona, funciona, para.

Depois vêm as estatísticas desatualizadas. O banco mantém um retrato de como os dados estão distribuídos e usa esse retrato para escolher o caminho mais rápido de responder cada consulta. Quando o retrato envelhece e a base cresce, ele escolhe caminhos ruins com toda a confiança do mundo. É assim que um relatório que rodava em quinze segundos passa a rodar em oito minutos, sem que nada tenha sido alterado no sistema. O usuário reclama que "o sistema está lento", a TI olha CPU e memória, encontra tudo normal, e a conversa morre ali.

Tem também a corrupção silenciosa, que é a mais desagradável. Um trecho do arquivo de dados se danifica no disco e ninguém percebe, porque aquela área raramente é lida. O backup continua rodando e copiando o defeito junto, noite após noite. Você só descobre no dia em que precisa restaurar, e aí descobre duas coisas ao mesmo tempo.

E existe o risco que não está em nenhuma ferramenta de monitoramento: uma única pessoa que sabe como aquilo tudo funciona, sem documentação, sem substituto, sem ninguém que tenha acompanhado as decisões dos últimos anos. Enquanto ela está lá, o ambiente parece organizado.

a conta chega inteira

Nenhum desses itens cobra pouco por vez. Eles cobram de uma vez só, e o formato costuma ser um destes: a operação para por horas em um dia de pico, dados de um período se perdem porque o backup daquele período não presta, uma auditoria pede evidência de retenção e recuperação e você não tem o que apresentar, ou a recuperação que deveria levar quatro horas leva três dias porque ninguém nunca tinha testado o procedimento em condição real.

Sobre esse último ponto: um plano de recuperação que nunca foi testado é uma hipótese. Ele funciona no papel. O primeiro teste dele não deveria ser durante uma parada de produção com a diretoria no telefone.

o dinheiro que você não gastou continua sendo devido

Aqui está a parte que interessa a quem assina orçamento. Quando a empresa opta por não ter gestão de banco de dados, o custo dessa gestão não desaparece. Ele fica parado, acumulando, e é cobrado depois em uma moeda pior: horas de operação parada, contrato de emergência pago em regime de urgência, retrabalho de equipe, e o desgaste com cliente que não foi atendido naquele dia. O valor mensal que você não desembolsou volta concentrado, num momento que você não escolhe.

Empresas fazem essa conta naturalmente em outras áreas. Ninguém discute a inspeção anual do elevador do prédio, e ninguém deixa de trocar o óleo de um caminhão da frota porque ele está rodando bem. O caminhão sempre está rodando bem, até a hora em que não está. A diferença é que a manutenção do banco de dados não tem selo na parede nem sirene, então ela é a primeira a sair do orçamento.

o que perguntar hoje

Se você quer saber se o silêncio do seu ambiente é saúde ou falta de visibilidade, não precisa de conhecimento técnico. Precisa de quatro perguntas e de respostas com data, não com adjetivo. Leve para a próxima reunião de TI:

Quando foi a última vez que a gente restaurou um backup de verdade, em um servidor separado, e conferiu que os dados estavam íntegros?

Se o backup falhar às três da manhã de um sábado, quem recebe o alerta? Em qual canal? E como sabemos que esse canal está funcionando?

Quanto o banco cresceu nos últimos doze meses e, mantendo esse ritmo, em que mês o espaço acaba?

Se a pessoa que cuida disso pedir demissão amanhã, o que exatamente acontece na semana seguinte?

Preste atenção menos no conteúdo da resposta e mais na velocidade dela. Quando existe gestão, essas respostas saem em minutos, com registro. Quando a resposta vem em forma de "acho que sim" ou "isso roda automático", você já tem a informação que precisava.

trocando achismo por diagnóstico

Em mais de 300 empresas que passaram pela minha mão, quase nunca encontrei um ambiente onde estava tudo errado. O que encontro com frequência é um ambiente razoável com dois ou três pontos cegos que ninguém tinha motivo para olhar, porque nada nunca tinha reclamado.

Descobrir quais são os seus pontos cegos custa uma conversa. Eu mantenho um Health Check gratuito justamente para isso: olhar o ambiente, verificar o que está de fato acontecendo com backup, espaço, desempenho e risco de continuidade, e devolver um retrato do que existe hoje. Sem compromisso de contratação depois.

Se preferir, faça primeiro as quatro perguntas acima internamente. Vindo resposta boa para todas, o silêncio do seu ambiente é saúde mesmo, e você economizou uma reunião. Travando em alguma, o link é este: mrdba.com.br/health-check

Marcio Mandarino

DBA Oracle e SQL Server há mais de 20 anos. Atendo plantão, recuperação de incidente e gestão contínua de bancos de dados. Este artigo saiu de um laboratório que rodou antes de virar texto.

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